Brasil está “no vermelho” do plástico: quem vai financiar a solução?

O Dia da Sobrecarga do Plástico alerta que os sistemas de gestão de resíduos estão ficando para trás. Mas também reforça a necessidade de investir em soluções que recuperam valor, fortalecem economias locais e evitam que o plástico chegue à natureza.

Segundo o modelo de 2026 da EA Earth Action, ontem, 6 de setembro, marcou o Dia Global da Sobrecarga do Plástico: o ponto em que a quantidade de resíduos plásticos gerada no ano supera a capacidade dos sistemas existentes de administrá-la adequadamente.

Não se trata de uma contagem realizada em um único dia. A data traduz dados anuais em uma medida clara da distância entre o que descartamos e o que nossos sistemas conseguem administrar com segurança. Em 2026, o mundo deve gerar 227 milhões de toneladas de resíduos plásticos. Quase 72 milhões de toneladas serão geridas de forma inadequada e poderão chegar à natureza.

No Brasil, esse limite foi ultrapassado ainda antes, em 13 de agosto. Desde então, o país opera “no vermelho”: gera mais resíduos plásticos do que a infraestrutura existente consegue coletar, separar, processar ou destinar com segurança.

Quem paga essa conta são os municípios, as comunidades e os trabalhadores da reciclagem. Materiais com valor econômico são desperdiçados, a poluição chega aos bairros, rios e oceanos, e quem trabalha para recuperar esses resíduos não recebe a infraestrutura e o financiamento necessários. Ao mesmo tempo, cresce a pressão para que as empresas assumam responsabilidade pelos resíduos gerados por seus produtos e embalagens.

A escolha é continuar pagando pelo prejuízo da poluição ou investir em sistemas que mantenham os materiais em circulação na economia.

Investir em sistemas que funcionam

A BVRio testa soluções práticas em condições reais, gera evidências e transforma o que funciona em modelos que podem ser ampliados e replicados. Por meio de nossa atuação em gestão de resíduos e economia circular, já mobilizamos US$4,2 milhões para iniciativas de economia circular.

Para empresas, organizações filantrópicas e investidores de impacto, os resultados podem ser medidos: mais resíduos recuperados, maior capacidade local, mais rastreabilidade e transparência e benefícios ambientais e sociais concretos.

  • Encontrar projetos com potencial de escala. O relançado Circular Action Hub é o maior diretório mundial de iniciativas locais de gestão de resíduos em busca de apoio. A plataforma reúne mais de 130 projetos em mais de 40 países, com potencial conjunto para recuperar e processar mais de 630 mil toneladas de resíduos por ano.
  • Pagar por resultados verificados. O Mecanismo de Créditos Circulares permite que organizações financiem a coleta, a triagem e a destinação adequada de materiais recicláveis, vinculando os recursos a resultados verificados e mensuráveis.
  • Apoiar os produtores no cumprimento de suas responsabilidades. A Responsabilidade Estendida do Produtor — REP, ou EPR na sigla em inglês — determina que os produtores assumam responsabilidade por seus produtos e embalagens após o uso. A BVRio já apoiou 11 países na elaboração de legislação e assessora governos e empresas na criação e implementação de sistemas eficazes.
  • Integrar a cadeia da reciclagem com rastreabilidade. O Kolekt já registrou mais de 20 mil usuários e 34 milhões de kg de resíduos recuperados. Suas ferramentas digitais conectam catadores, coletores, processadores e compradores, criando registros rastreáveis desde a coleta até a venda dos materiais.
  • Fortalecer a capacidade local de reciclagem. A BVRio assegurou R$6,7 milhões para melhorar infraestrutura, logística e serviços técnicos de cooperativas de catadores no Brasil.
  • Criar um modelo financiável de proteção dos oceanos. Por meio do Pescando Resíduos, pescadores artesanais já retiraram mais de 600 toneladas de resíduos da Baía de Guanabara e de seus manguezais. O programa transforma a limpeza do ambiente marinho em um serviço mensurável, protege ecossistemas costeiros e gera renda adicional para comunidades pesqueiras.

Uma rota brasileira para o financiamento

A Lei de Incentivo à Reciclagem — LIR oferece às empresas tributadas com base no lucro real uma forma de direcionar até 1% do Imposto de Renda devido a projetos previamente aprovados pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

Esses recursos podem financiar infraestrutura, equipamentos, capacitação, novas tecnologias e o fortalecimento de cooperativas e redes de comercialização. Dentro do limite previsto em lei, a empresa direciona parte de um imposto que já seria devido para uma iniciativa com resultados ambientais e sociais concretos.

Subsidiárias brasileiras de grupos internacionais também podem utilizar o incentivo quando são tributadas pelo lucro real. Os projetos, no entanto, precisam estar aprovados pelo Ministério e aptos à captação.

Financie a solução

O financiamento da reciclagem entrega muito mais do que ações de limpeza. Ele pode ajudar empresas a cumprir suas responsabilidades, fortalecer cadeias locais e construir a infraestrutura necessária para evitar que o plástico se transforme em poluição.

Empresas, organizações filantrópicas e investidores podem conhecer oportunidades no relançado Circular Action Hub ou trabalhar diretamente com a BVRio para ampliar modelos que já demonstraram resultados.

Por meio de investimento direto, Créditos Circulares ou, quando aplicável, da LIR, cada recurso bem direcionado pode recuperar mais valor, manter mais plástico fora da natureza e melhorar a renda e as condições de trabalho de quem torna essas soluções possíveis. Juntos, podemos fazer o Dia da Sobrecarga do Plástico avançar no calendário.

Fonte dos dados sobre o Dia da Sobrecarga do Plástico: EA Earth Action, Plastic Overshoot Day Report 2026.