Estudo propõe critérios comuns para fortalecer a rastreabilidade da soja e da carne
O Brasil já dispõe de ferramentas avançadas para monitorar as cadeias da soja e da carne bovina. Para fortalecer o monitoramento e garantir cadeias mais transparentes, legais e livres de desmatamento e conversão, os sistemas existentes deveriam exigir informações mínimas sobre a produção e a adequação ambiental dos imóveis rurais. A uniformização de critérios facilitaria a comparação de resultados e proporcionaria mais segurança a produtores, empresas, governos e compradores internacionais.

Esse é o ponto de partida do estudo Rastreando a Responsabilidade: Fortalecendo o Monitoramento do Desmatamento nas Cadeias de Suprimento de Soja e Carne Bovina do Brasil, lançado pelo WRI Brasil em 28 de julho.
O relatório tem como primeira autora Roberta del Giudice, Diretora de Florestas e Políticas Públicas da BVRio. A pesquisa foi desenvolvida por Roberta em conjunto com a equipe do WRI Brasil entre 2024 e 2025, período em que ela ainda integrava a organização.
A análise compara 21 iniciativas de monitoramento e rastreabilidade socioambiental, dez relacionadas à soja e onze à carne bovina, com atuação na Amazônia e no Cerrado. Entre as diferenças encontradas estão as áreas monitoradas, as datas a partir das quais o desmatamento é considerado, a cobertura dos fornecedores indiretos e os procedimentos adotados para comprovar as informações.
Para enfrentar o problema, o estudo propõe um marco de referência unificado.. Em termos simples, seria uma lista comum de verificações mínimas para determinar se a soja ou a carne cumprem a legislação brasileira e os compromissos de desmatamento e conversão zero.
A proposta é tornar transparentes as diferenças de critérios e dados adotados pelas ferramentas de verificações. Assim, mesmo utilizando ferramentas distintas, estará mais claro o que é — ou não — verificado e porquê as mesmas perguntas produzem resultados diferentes, auxiliando a adoção de uma ou outra metodologia por produtores, compradores, governos e investidores.
“O Brasil não precisa começar do zero. Já temos ferramentas robustas, mas precisamos alinhar o que é verificado e garantir que as informações possam ser comparadas e utilizadas ao longo de toda a cadeia”, afirma Roberta.
Da fazenda ao mercado: rastreabilidade na prática
Apresentado em 2026, o RCF Trace responde diretamente a uma das questões centrais levantadas pelo estudo: como fazer com que as informações ambientais verificadas na origem acompanhem a commodity ao longo da cadeia e possam ser utilizadas com confiança por compradores e investidores?
O relatório mostra que o Brasil já dispõe de sistemas avançados para verificar desmatamento e conformidade ambiental nas propriedades rurais. Entretanto, a fragmentação dos critérios e as lacunas entre produção, armazenamento, processamento e comercialização ainda dificultam a rastreabilidade integral e geram incertezas para os mercados internacionais.
O RCF Trace busca preencher justamente essa distância entre a propriedade e o comprador. O projeto conecta dados sobre desmatamento, uso da terra e emissões de carbono nas fazendas às transações comerciais realizadas ao longo de três cadeias internacionais. A documentação das operações é verificada de forma independente, permitindo que os atributos ambientais acompanhem a soja entre traders, processadores, fabricantes e varejistas.
Em vez de criar apenas mais uma plataforma de monitoramento na origem, o projeto testa como dados ambientais podem ser transformados em evidências comerciais verificáveis. O modelo também busca oferecer uma alternativa complementar à segregação física integral da soja, que pode elevar custos e criar dificuldades logísticas.
A BVRio exerce a secretaria do Conselho Consultivo Ambiental do Responsible Commodities Facility. O conselho oferece orientação estratégica sobre as operações, os planos de expansão e a governança ambiental da iniciativa.